Ontem eu achei que passaria o primeiro feriado na cidade por livre e espontânea vontade, mas à meia-noite não me contive e peguei a estrada rumo à praia. Decidi que não faria o percurso habitual. Subiria a Serra por Nova Petrópolis, passaria por Gramado, Canela, São Chico e desceria por Cambará. Se meus cálculos estivssem certos, pegaria o nascer do sol à beira-mar. Ah!, esqueci de dizer que meu objetivo era fazer umas fotos noturnas e aproveitar as primeiras luzes da aurora nos campos de cima da serra.

Só que as coisas não saíram como planejadas (na real nem um roteiro pré-definido havia - mas o bom é assim, sem muito planejamento). Tudo demorou demais. Arrumar equipamento, encontrar cenas que valessem a pena, luzinhas diferentes, e fotos no meio de estradas, à noite, são ainda mais arriscadas. E qualquer carro que aparece tem que começar tudo de novo. Recompor, mão-de-obra com o tripé errado... e são exposições longas. Dois, três, cinco minutos. Muito tempo "perdido". O tempo passa voando. Logo a escuridão começa a dar espaço ao novo dia. Quando a aurora abriu, eu ainda estava em Canela. O sol deve ter nascido quando eu já estava em São Chico, mas eu não o vi. A fria umidade da noite transformara-se num denso nevoeiro. Baubau meu planos de fotos do nascer do sol.

Eram oito e meia da manhã e o dia ainda permanecia envolto no gelado nevoeiro. Mas mesmo assim eu estava feliz. O rádio tocava um velho rock n roll e eu já havia conseguido umas quatro cenas bem boas, em que pese ter feito poucas exposições. A noite, embora os contratempos, tudo foi muito legal e meu objetivo - a diversão - fora alcançado. Dava-me por plenamente satisfeito e não esperava mais nada (na real nem sabia mais o que esperar). Foi quando cheguei à descida da Rota do Sol, o horizonte se abriu e fui brindado por essa luz celestial (sim, é o apelido que os fotógrafos deram para esse tipo de fenômeno). Dei um jeito de parar em meio a uma estrada suspensa e sem acostamento para clicar essa imagem. Direto da câmera, zerada, e, em que pese parecer preto e branco, é colorida. Eu, que ao sair de casa, blasfemava pelo atraso e por perder meu tempo procurando alternativas à falta de equipamento, que quase me desesperei ao ver a aurora abrir muito antes do local que eu imaginava, e quase fiquei triste quando o dia amanheceu com visibilidade zero, fui presenteado com essa cena. Trocaria todos os amanheceres na praia por essa luz celestial abraçando a imensidão verde desse vale. Se o meu atraso foi um complô divino para que eu pudesse ter a alegria de tirar essa foto? Muito pouco provável, afinal de contas, não é o futuro que puxa, mas sim o passado que empurra. Talvez fosse uma situação daquelas de fazer do limão uma limonada, não fechar os olhos desanimado e continuar prestando atenção em alternativas. Talvez fosse apenas o acaso d'eu estar no local certo na hora certa. Mas eu sou um otimista. Eu vejo o copo sempre meio cheio e ainda prefiro a versão romântica de que a vida sempre está conspirando a nosso favor.

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