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Fred Furtado

Guardo pedras dentro de bolsos de fumaça, ascendo pavio de vela molhada, canto para ensurdecer as árvores e elevar o brio das cigarras. Minha mente dança nesse espaço inquieto, muito remoto, sempre visitado e usurpado, chamado alma.

Tem palavras cansadas guardadas no bolso do casaco antigo guardado no armário do quarto velho que já não presta para dormir. Uma delas é razão disso tudo. Uma razão pra isso tudo é uma delas. Outra delas me leva a refletir em nada. Nada ultimamente me leva a pensar em tudo. Então ando pensando em quase nada. Assim nem tudo me cansa.

A vida passou por mim a mão. Achou que eu fosse reclamar. Dei a ela a mão de volta. Entrelaçamos os dias. Nossos dedos nem pensaram em achar o tempo. Fumei um maço de horas enquanto enrolava um cigarro de vidas. Ascendi um charuto de poesia. Fiz um baile na praça municipal.

Comprei uma balança para equilibrar o vento. A corda veio bamba. Acendi uma luminária para ler meu livro. As folhas eram lisas. Outro dia caí de costas. Quebrei o nariz. A vida sempre precisou de um pouco de coerência. Nunca achei na mercearia. Encomendei um espelho lindo, imenso, do tamanho da parede do meu quarto. Acredita que ele caiu no teto e se quebrou em um único pedaço?

Outro dia patinei entre as nuvens. Tropecei num farelo de estrela. Caí numa brecha do tempo. Aterrissei num temporal. Levantei, limpei as pétalas das rosas do pé de uva e resolvi aprender tudo sobre a vida.

Ando cometendo muitos erros no caminho. Cada um mais perfeito que o outro. Um dia, de tanto andar, vou acabar virando pássaro.

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