Aqui, nesta praia amarela,
ainda fúria acesa
do sol da criação,
no princípio do mundo
um homem surgiu nela
— espanto vagabundo
sem pátria e sem inferno,
feliz na sem-razão —
e olhou para o mar
surpreendido
de ver o céu caído
e mais natureza
a nascer-lhe no olhar.
Hoje, nesta praia do sul
ao pé dum velho Forte,
quando a luz outoniça
e parda do poente
voa no céu azul
todo o mistério dos fossos
— um poeta altivo e mudo,
com pátria,
com inferno,
com morte
e, principalmente,
com esta dor da justiça,
olha com espanto para tudo:
caos de lágrimas e ossos,
cóleras de inverno,
fomes de primavera,
raivas do mar profundo...
E os homens de novo à espera
do princípio do mundo.

José Gomes Ferreira

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